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06.09.2018 • Febrafite

Opinião | Exílio voluntário

A busca por uma oportunidade de vida melhor fora do Brasil não é novidade. Esse movimento, porém, intensificou-se nos últimos anos e surpreende pela mudança do perfil daqueles que deixam o país. A diferença da onda atual para aquela verificada no fim do século passado é que agora a emigração atinge uma parcela mais qualificada da população, de nível universitário.

De acordo com os dados da Receita Federal, no auge da crise econômica recente, entre 2014 e 2016, foram entregues 55.402 Declarações de Saída Definitiva do País, crescimento de 81,61% na comparação com o triênio imediatamente anterior, de 2011 a 2013.

Especialistas estimam que esse número seja ainda maior, uma vez que nem todos os brasileiros prestam essa informação quando vão embora. Para cada um que sai legalmente, há outro que não prestou contas para a Receita, de acordo com Gilberto Braga, professor de finanças do Ibmec do Rio de Janeiro.

O índice reflete, no entanto, a saída de uma elite financeira e cultural, pessoas com bom nível econômico e profissional, que não precisam emigrar ilegalmente. Nesse contingente se incluem empreendedores e altos executivos que abandonam suas carreiras para abrir um negócio no exterior.

Além de talentos e ideias de profissionais que estudaram e se formaram aqui e levam essa qualificação para nações estrangeiras, o Brasil está perdendo recursos.

Os investimentos de brasileiros em imóveis no exterior quase dobraram de 2011 para 2016: de US$ 3,6 bilhões para US$ 6,1 bilhões, segundo dados do Banco Central.

No ano passado, para os Estados Unidos foram US$ 2,3 bilhões. Portugal vem em segundo lugar, com US$ 725 milhões, seguido de França, com US$ 589 milhões, e Itália, com US$ 290 milhões.

Para completar esse quadro, em 2017 o Brasil ficou pelo terceiro ano consecutivo no top 10 de países com maior fuga de indivíduos donos de US$ 1 milhão ou mais em ativos, somando 12 mil “emigrantes classe A” desde 2015. Apenas no ano passado, 2.000 milionários brasileiros fizeram as malas e deixaram o país com suas fortunas, segundo dados de uma empresa global de pesquisa de mercado.

O que leva a essa fuga de cérebros, de empreendedores e de capital sem precedentes? A deterioração do cenário político e econômico parece ser o principal motivador para essas pessoas que, após acumularem saber e riqueza ao longo de sua vida útil, sentem-se frustradas por não vislumbrarem perspectivas de reversão de uma conjuntura perversa.

Os infindáveis escândalos de corrupção e as taxas crescentes de criminalidade parecem indicar, ao contrário, que o fundo do poço pode estar ainda mais abaixo.

No atual mundo globalizado, com migrações dramáticas causadas pela fome e pela guerra, o número de três milhões de brasileiros que optaram por viver em outros países ainda é proporcionalmente reduzido em relação ao nosso total de 208 milhões de habitantes.

Mas o êxodo recente preocupa, até porque esse tipo de emigração conta com estímulos externos, pois há países interessados em atrair investimentos e mão de obra especializada. Cabe aos presidenciáveis o devido nível de responsabilidade em relação a essa questão, pois são recursos humanos e financeiros que devem permanecer aqui.

Os anos de chumbo do século passado levaram diversos brasileiros, que muito poderiam contribuir com o país, a errarem cegos pelos continentes. Era o tempo do Brasil “ame-o ou deixe-o”.

Hoje, o exílio pode ser voluntário, e não forçado, mas continua a ser uma perda incalculável. Esperemos que as políticas do próximo governo resgatem nosso otimismo e sejam variáveis determinantes para a reversão dessa curva migratória.

 Abram Szajman – Presidente da Fecomercio (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo) e dos Conselhos Regionais do Sesc (Serviço Social do Comércio) e do Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial)
 

 

Leia aqui a versão publicada no Tendências e Debates da Folha de S. Paulo nesta quinta (06/9).

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